Dia ensolarado.No calor escaldante do meio-dia o menino malabarista demonstra suas habilidades no sinal de trânsito; na esperança de conseguir algum trocado.Este ele usará para várias finalidades: pagará o almoço, provará a paçoca do bar do Zé, trocará seu pião e tentará "zerar" o fliperama, enquanto devora a paçoca e imagina o novo pião.
O sinal fechara.Ele entra rápido, já iniciando seu curto espetáculo que, deveria ser majestoso para agradar o motorista e veloz ao ponto de sobrar tempo para recolher as poucas colaborações.As varetas subiam rodando, enquanto ele dava um passo à frente com o intuito de pegá-la pelas costas e mais uma vez lançá-la rodopiante.Tudo corria bem, porém, de repente um rosto lívido e rasgado por um sorriso contentíssimo passou pela sua visão.Foi um desconcerto só!A vareta que já estava no ar, pela desconcentração do momento, voltou-lhe na cabeça em um baque surdo.Os motoristas soltavam gargalhadas e aproveitavam a oportunidade para ralhar com o despreparado garoto:
- Vá entregar panfletos, moleque! E outro gargalhando, concordou:
- Sim, vá entregar panfletos, antes que acerte o carro de alguém e agrave essa sua miséria!
Os risos soavam sem cessar, e ele, o malabarista, todo desajeitado recolhia seus apetrechos e saia do meio da rua com "uma mão na frente e a outra atrás", chateado por ter falhado na sua tarefa e triste por saber, que naquele momento a chance de jogar fliperama no dia tinha acabado.
O sinal abrira.Ele ficou sentado no passeio com ar vazio a maldizer aquele rosto que lhe tirara a atenção.
- Nunca aconteceu isso comigo antes! Pensara.
- Logo hoje...
Hesitou o seu pensamento e voltara correndo para o meio da rua, pois o sinal, mais uma vez, estava no vermelho.
O dia, depois de tal acontecimento fora normal. O pequeno malabarista arrecadou uma quantia razoável. Já era noite e ele estava exausto.Com suas varetas sobre os ombros andava lentamente pelas ruas a caminho de casa, que era uma praça onde ele dormia todos os dias. Ajeitava-se de baixo de um monumento, que até o protegia muito bem do vento e da chuva, quando esta resolvia vir.
Finalmente chegara em casa e já fora largando seu corpo no seu fino e gasto colchão que, um dia, por sorte, encontrara junto a um monte de lixo.Com as pernas bem esticadas e a barriguinha voltada para cima, o pequeno malabarista pensava no rosto que tinha visto no mesmo dia. Era uma menina, sem dúvida; era bela, o carro em que ela estava ele mal vira, mas deveria ser bem luxuoso, pois aquela rua conduzia a um bairro nobre da cidade.Até que de repente pegara no sono. E nesse instante suspirou como se a vida fosse tranquila e cheia de ternura para com ele.E que o lívido e fantasmagórico rosto não representasse sua tão conhecida rival brasileira: a desigualdade social.
Divinópolis, Setembro de 2008
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