Que afronta! Mas, que afronta! Eu que tanto me dediquei a ele, que lavei que limpei e que me submeti a tantas várias outras atitudes indignas para uma mulher do meu nível! Que injúria, meu Deus...
Foram meses e meses nessa rotina. Sempre mantive uma tola esperança que tudo se ajeitaria. Nesses tais meses corridos, pensei muito sobre o que fazer. Já não suportava agüentar tudo aquilo sozinha, ainda não havia contado para minha família. Não tinha coragem sequer.
Tive a sorte de não depender do dinheiro dele, porém, tive o azar dele depender do meu. O dinheiro ia às mãos dele sem destino, e no dia seguinte lá vinha ele, todo cínico implorar por mais.
A fisionomia era a mesma, não demonstrava sinal de doença ou de quem possui alguma dependência química. As bochechas bem coradas, a face nem delgada nem rechonchuda, continuava lindo, como no dia que eu o conheci, e carinhoso, quando estava disposto a me acariciar, desejoso e insaciável quando decidia devorar o meu sexo.
Eu não me agüentava. A presença dele me lançava em um turbilhão e quando dava por mim mesma estava entregue ao zelo dele e já descansava exausta sobre o peito de tal homem. E no decorrer da noite estava mais uma vez enrolada sozinha nos lençóis, meras raízes da minha solidão que me enforcavam, me sufocam, me dilaceravam.
Em minhas leituras eu me perdia, os meus afazeres me entediavam, ao levantar minha paciência já estava esgotada e eu já me encontrava perplexa diante de minhas cogitações e devaneios sobre o homem que cuidava de mim quando lhe parecia direito e quando assim queria.
Farta destas mazelas, decidi me dedicar a outro homem, a outra paixão. Faria como ele, para poder sentir o que ele sentia. Para poder saciar-me como ele, para deleitar-me em transas noturnas e, quem sabe, loucuras diurnas, como ele mesmo costumava a fazer comigo, e sem dúvida, noites corridas com mulherzinhas de alminhas pequenas, a saboreá-las por essas sujas ruelas e casas noturnas.
Dei pra sair à noite, logo depois dele. Via-o virar a esquina e já saia em direção oposta. Andava por restaurantes luxuosos da cidade, sem muito ânimo, mas insistia naquilo na esperança de me livrar do cravo que aquele homem havia trespassado pela minha alma, pelo meu eu. Não foi difícil completar o meu objetivo. Às duas da manhã, eu já estava nua diante de um rapazinho qualquer; coitado, ele estava apenas louco para desfrutar do vigor de sua juventude. O mais engraçado é que dava pra perceber no rosto dele o contentamento por ter conseguido transar com uma mulher mais velha. Era um besta! E eu... Bem mais besta, por estar entregando meus caprichos a um corpo qualquer, a um jovem que mal sabia dos meus caminhos de mulher e, mesmo se soubesse não conseguiria compreende-los ou explora-los.
Decidi manter contato com o jovenzinho. Ria dele e, também, odiava-o, pois via nele mesmo a minha própria inocência de alguns anos atrás e, lembrava-me de como entreguei a minha juventude e caprichos às experiências de um homem qualquer. Mas, sabia que isso estava longe de passar pela cabeça daquele rapaz imberbe e que, também, ele não desejava o que eu desejava e não esperava de alguém o que eu esperava quando tinha a mesma idade. Meus sentimentos eram outros, minhas esperanças e aspirações também.
Eu e o homem que havia me tomado de mim mesma nos amávamos de dia e, quando a noite nos abraçava dividíamos a nossa cama com outros corpos. Eu desejando senti-lo naquele corpo pueril e sem sabor, enquanto ele buscava sua essência nas fontes mais diversas, nos sexos mais distintos, nos corpos mais libertinos, pois a inocência para ele nada tinha nada para oferecer e não sabia aceita-la ou muito menos conviver com tal.
Frustrei-me, pois não consegui, ao menos acredito sentir o que aquele infeliz sentia. O jovem dançava em meu corpo e eu perdia-me em injurias, em solidão e desafeto. Era uma mulher tola. Sou uma mulher. Fui sem querer apenas um lago de prazer masculino, no mais uma boa e tradicional mulher.
Pensei, muitas vezes em matá-lo enquanto dormia, mas achei esse desfecho tão típico de novela de emissora comum, que já achei patético de cara. Não ia matá-lo, não ia deixá-lo. Decidi, por fim, é fazer dele o que eu bem quisesse: quando ele me quisesse seria o momento em que eu também iria querê-lo. E no meio dessa loucura, me divertiria em romances bobos, os quais são feitos do amor carnal, nada mais. Criando uma simultaneidade de prazeres, de gozos, de paixões. Afinal, não por ser apenas uma mulher quer dizer que devo viver para o amor e para as relações mais estreitas com esse sentimento. Mulher também deseja deleitar-se em prazeres descontínuos e excessivos, mulher também é nutrida pelas ações carnais e lúbricas, como o sexo sem razão e zelo.
É porque eu sabia muito bem que se o deixasse sentiria grande falta e imensa saudade daquela virilidade que era sempre uma surpresa, que não tinha hora, que não batia na porta e que não avisava quando ia partir. Apenas aparecia, tomando-me pela cintura e me absorvendo em afagos e abraços. Sentiria falta sim! Pois tal homem sabia muito bem dos meus anseios e, fazia-me desmanchar em prazeres que nenhum outro homenzinho seria capaz. Era ele a ponte para minha satisfação.
Senti-me assim, mais calma, mais querida e mais dona de mim mesma, que é o que toda mulher quer ser: dona do prazer que pode conceder ao homem que se faz digno de tal.
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