Guardado no fundo do quintal esta minha maior flor
Não fui eu que guardei.
Ela amanheceu lá, quis
Que eu a visse daqui.
Vi, e?
Chorei.
Guardado no fundo do quintal esta minha maior flor
Não fui eu que guardei.
Ela amanheceu lá, quis
Que eu a visse daqui.
Vi, e?
Chorei.
Pensava sobre a Participação. Logo em um dia que não participei de realmente nada. É claro que foi por isso que eu pensei na tal participação. Talvez, eu com meus atuais trinta anos, não fui dado a participar a nada, ou talvez, quem sabe, não quis participar de realmente nada. Mas não creio que tenha sido isso que me trouxe para essa minha presente situação.
Acredito que fora apenas aquela atitude tomada naquele dia tomado pela minha euforia, a qual de tão eufórica, deixara todos eufóricos. Fora aquela atitude típica de pessoa efusiva e tomada pelas boas sensações. E me esqueci por um dia, talvez por alguns dias - o que era algo muito fácil de acontecer, esqueci-me que sensações boas e duradouras tiram-nos o bom senso. O bom senso de nos guardar, pelo menos de me guardar.
E há sentimento melhor do que o de que você pode com tudo e com todos, e há sentimento mais traiçoeiro que este? E há maior tolo do que eu por ter acreditado nessa baboseira? Foi o que fiz até agora. E quem dirá que não continuarei assim até amanhã ou depois de amanhã, depois, de depois, de depois? A teimosia é algo inato a mim. E eu sei muito bem disso.
Não me lembro bem do dia, por que ele fora realmente importante e bom para mim, mas não me lembro. E não sei se quero lembrar, nem sequer me esforço. Hoje é inútil me esforçar, não que eu tenha algo incurável, na verdade acredito que eu seja algo incurável. Mas o que é curável e o que pode ser curado?
Enfim, naquele dia chegando a minha casa, fui tomar banho e mesmo no calor da água, que é ótimo para relaxar, eu estava eufórico e era arrebatado por lembranças e sensações descomunais. Logo depois, deitado na cama, com o corpo fresco e roupas frescas, mas o peito ardente. Prometi para mim mesmo que seria alguém dado as pessoas, dado a vida, foi aí, a partir daí, que perdi minha participação. Um dia saberei por que, mas se eu morrer sem saber, por isso não hei de padecer. Esqueci que não vivo, pois já não participo. E onde há vida sem a Participação...Participação...participa...partici...
Camilo das Dores
É impressionante como discursos feitos sobre as mais simples relações humanas, podem nos acrescentar conhecimentos fundamentais que têm a capacidade de alterar nossas atitudes e clarear nossos conceitos. E é mais impressionante ainda quando tais discursos vêm de indivíduos que são ignorados pela sociedade, como os mendigos. A capacidade que alguns destes têm de discursar sobre as atitudes que eles já presenciaram é até mesmo espantosa. E o interessante que tais discursos são reclamações que estão misturadas entre conceitos recorrentes em nosso dia-a-dia, por exemplo, o preconceito. Mas o que instiga é como tais pessoas muitas vezes querem apenas alguém para escutá-las e dirigir a palavra a elas, porém são ignoradas, maltratadas e tratadas simplesmente como algo que somos obrigados a conviver. Os que as ignoram perdem minutos de sabedoria que para muitos, infelizmente, seria necessária. Já os que as escutam fazem total diferença no meio, pois amenizam a insatisfação de pessoas que foram largadas, simplesmente largadas pela sociedade, e, além disso, adquirem o conhecimento de que o preconceito e muitas outras ações podem causar na mesma sociedade que ignora e submete indivíduos ao nada existencial. Então, pode-se afirmar que indivíduos jogados a margem podem não ser ou deixarem de ser violentos se nossas atitudes em relação a eles não forem agressivas, se não agredirem o que resta do ego e do “amor próprios” deles, a não ser nos casos de dependentes e alienados, pois não estão e não são sãos. Basta que sejamos compreensíveis com a condição deles, basta apenas não agirmos a partir de critérios materiais. Pois qual fator crucial que isso interfere, a não ser nas regalias?
Zé da Esquina