segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ser omitido

Esconda do mundo o que lhe é profundo: sentimentos, intenções e todos seus valores que nele são extintos. Não mostre sua intensidade. Dirão que é apenas sua voracidade e que não sabe viver sem causar desorientações.E queda de falsas verdades. 
Finja que o mundo ao seu redor é comum assim como é para os desesperados, perdidos e ingratos.
Negue sua preferência pela dor e pelo amor, mas afirme que ama o torpor, o cobertor e o beijo rápido e sem sabor. Que olhar o rio é patético e que a sombra de uma árvore refresca tanto quanto a sombra do teto insensível de sua casa. 
Diga que ama a noite entre corpos bêbados e desconhecidos, e que o beijo recebido sem motivo é tão bom quanto qualquer outro beijo amado.
Finja que os valores não degradaram ou então, ao menos, finja que este mundo de agora o mantêm vivo.

domingo, 19 de outubro de 2008

Se esteve

O Esteve um dia não estará
Estar é uma questão de tempo e vontade
Hoje, jovem e prestante, amanhã velho e ausente
E se hoje estive é porque o esteve está
Mas não estará se um novo sol raiar
Se o tudo é o esteve o estará é nada
É coordenada errada, é rumo sem estrada

Esse esteve é nó frouxo
Se o apertei não foi para enforcar
Mas apenas para melhor amarrar
Esse esteve foi passada embriagada, foi tropeço, que culminou
Em tombo no estar
Passado e Futuro não são feitos para guiar.
Se o primeiro é para se arrepender o último é para se frustrar.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Lua minha

Hoje eu dormi olhando você, lua
Linda no céu
Sem meus óculos eu te vi duas
Uma lua bonita e outra feia, sobre a outra
Os raios que reflete em mim, entram pelos meus olhos, e neles
Constitui-se o cabo do cetro que na ponta leva a jóia lua.
Lembras a hóstia sagrada também.
Engraçado, hóstia e cetro por muitas vezes submeteram o homem
Porque tamanha beleza lembraria símbolos de incontáveis tristezas?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Falecido

Desculpe-me, matei-te.

Matei-te em mim

Meus olhos se liquefazem diante de teu corpo estático e frio

Minha mão trêmula aperta meu peito a fim de revivê-lo

Mas, matei-te.

E se agora jaz em meu peito, é porque a muito estou sepultado no teu.

Ondas de lágrimas quebram no recife dos meus olhos

Revoltando-se em uma ressaca longa...longa

Por tua e minha morte

Não como “Romeu e Julieta”, mas como Judas e Cristo.

E não por amor ou traição,

É que a fome e o egoísmo em nós são maiores

Eu faminto, louco por ti

E tu, egoísta por ti.

Tirastes teu amor de mim

Desesperado, matei-te em mim

A sangue frio e olhos transbordando em lágrimas.

 

Porém, tal morte tem preço imediato,

O ar me rejeita

Meus cabelos não mais se movem ao toque do vento e muito menos encharcam-se ao banhar-me

A água se faz ácida ao toque da minha carne imunda e mal cheirosa de tanta dor e falta de compaixão.

Meus amigos estatuados

A solidão mais do que nunca minha companheira

Ela me acorda, ela me lava, ela me ama, ela me mata.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

De uma criança

Venerar para sobreviver. Munir-se de doçuras e de uma caixinha de surpresa para cegar-se diante do saber. Fantasias sociais e luxuosas, busca irracional. Deteriorização do ser. Foco da impotencialidade. Sutilezas e futilidades de um feixe extenso e bem amarrado de gravetos. Observados por folhas verdes que se deleitam ao vento, porém, murcham-se. Pela visão doída perante a imobilidade do feixe.
Vida, minhas letras gotejam nesta simples folha junto das tuas. Tu és vítima da simplicidade, do ponto final, do que é concreto. Acaricio-te os cabelos, sussurro-lhe no ouvido do mundo, que és a forma abstrata e perdida de mim. Que rezo em busca desta forma em mim, lugar tão vasculhado. Não fujas, pois graveto não mais serei.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Busca do Ser

Tão vago quanto o espaço entre o sim e o não. Ausência de contornos, sem nitidez e delimitações. Consequência do abandono da auto-afirmação e a desconsolação diante do próprio eu. Instabilidade do ser. Busca d'alma, grito pelo inquilino do próprio âmbito. 
Escravo da Sensibilidade e da Fraqueza face ao ser. Patético jovem confuso, patético jovem romântico, patético jovem sem tempo. Patético jovem quixotesco, sem forças para exteriorizar seu mundo. Lirismo burro. Tempo implacável. Peito miserável e pueril. Busca de mim mesmo. Muro entre o eu e o agora. "Cortina-de-ferro" de minha potencialidade. Busca inútil pela felicidade imaculada. Crente na bondade humana. Morto, esperançoso morto.

O tateio

Eu tateio, 
Eu catador,
Dia e noite, tateio
Apalpo o resquício do teu consumo
Em busca do meu consumo
Penso em minha família,
Tateando
Vivo com o estômago reivindicando
Tateando
Tateio lata, tateio papel
E tento fazer minha filha acreditar em papai Noel
Tateando
Construí uma casa, quatro paredes e um teto.
E no quintal um bordel
Tateando
Nem sequer existo no papel
Tateando
Ai, um caco de vidro
E meu dedo pro "beleleu"
Tateando.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Desencontrados

E a confusão apoderou-se dos dois corpos
Dizia ser dela, ele
Francamente, não era nem dela nem dele.
Ambos diziam, ambos se enraiveciam, ambos se delatavam
Se amavam...se amavam...

Ele se estendia, Ela, Ela se encolhia
Ele a assegurava, Ela evitava...evitava...
Mas que agonia...agonia...que medo...que dúvida...ava...ava...

Mãos se afrouxaram
Duvidava...
Corpos se separavam
Evitava...
Vozes se calavam
Chorava...
Olhos se cegavam
Desolava...
Ambos se separavam
Procuravam...lamentavam...
Continuavam...mas...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Verso, natimorto verso

Vamos, verso meu,
Rasgue esse chão
Queime meu peito incipiente
Entre em chamas

Verso meu, porque és tão cruel?
Porque és tão inanimado?
Quero que viva, levante!
Tome-me pela mão e me mate
Nos prazeres de sua poesia

Ah, verso meu, és doce,
Mas sem graça e de péssimo gosto feito a "Sangria"
Não sabes que te venero, que te quero?
Mas sua atitude passiva face aos meus desejos
Sufoca-me em dor e desespero.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Tardezinha

Eita, banquinho bom
E esse barulho de água correndo no fundo.
Hm...só falta uma rede , ia ser aquele sono de pedra,
Mas tranquilo e calmo por si só
E só acordaria quando sentisse o cheiro do café
Maria derramando água no pó.