terça-feira, 30 de setembro de 2008

Vida ao poeta

Leiam meu sangue
Ele borda essas letras
Gota à gota ele deixa a caneta,
Meu orgão
E corre nesses versos
Sinto a caneta pulsar, simultaneamente com meu peito
Jorrando poesia

Tais versos são cacos de minha alma
Que não é mais minha
É da poesia, suspiro de vida
Ah, poesia! Possuistes um tolo
Um homem que morre, que se mata, que se desfaz 
E se refaz na paixão de viver
Poesia, mulher que não toco, mulher que vejo de longe e que me banha em delírios!
Oh, impossibilidade de minha alma.
Deixa meu peito que já não sei mais morrer.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Televisionada Vida

Sua forma quadrada, caixote débil
Quadrada como a consciência dos que lhe dão atenção
Ladra da inocência pueril
Apostola da imbecilidade
Pastora do rebanho de ovelhas cegas

Criadora de charmes, estereótipos e macaquices
Deturpadora da verdade
Fonte de hipocrisia e utopias civis
E ferramenta dos parangolés

Um dia, um não tão breve dia
Serás expulsa. Sentirás o ostracismo, após tantos anos de envenenamento
Não mais participarás do cotidiano deles
Nesse dia teu rebanho não estará cego,
Pois terás perdido o poder sobre as mentes que hoje se fazem tolas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Pobre soneto

Um castelo vazio e frio
O vento sem mover o moinho
Um jardim sem rosas e sombrio
Um andarilho a caminhar sozinho

Flores e folhas a se desprenderem dos galhos
É outono
Um caminho sem atalhos
Mais uma noite vista e um dia envolto pelo sono

Lágrimas deslizam pelos caminhos e experiências das rugas da senhora
O aperto de mão, o abraço de um irmão
O aceno a avisar que já é chegada a hora

O sorriso carinhoso emoldurado por lábios vermelhos
O perfume deixado na roupa
Morto e derrotado, mostra-se o rosto nos espelhos

Divinópolis, Agosto de 2008


domingo, 7 de setembro de 2008

Elegia de mim mesmo

Sou um bicho fugidio
Se abro a porta de casa
E encontro alguém no meu eu
Fujo...corro...ali eu não fico!

Apesar do meu recuo
Tudo me atrai
O meu tudo, é exatamente o teu!
Não sou distinto,
Mas fujo.

Não por raiva, não por medo
Mas, por paixão, por amor
Para não vos ferir com o amor que vos tenho
Como acontece comigo, tantas feridas vindas de vocês
Por favor
Não briguem, não se destruam
Pois me destruo também,
Como um furacão que arranca, com violência, com ignorância
Todas as árvores do meu pomar
Isso me enche de temor, pois eu vos amo.

Divinópolis, 07 de Setembro 2008

sábado, 6 de setembro de 2008

Ele e talvez eu.

Que afronta! Mas, que afronta! Eu que tanto me dediquei a ele, que lavei que limpei e que me submeti a tantas várias outras atitudes indignas para uma mulher do meu nível! Que injúria, meu Deus...

  Ele me tirou de casa com várias promessas irresistíveis. E teve tanto zelo com que dizia, e foi tão sorrateiro que nem mesmo o meu pai, que lida a tanto tempo com política não percebeu as intenções daquele covarde.

 Lá, em minha casa, eu tinha tudo. Meu pai é um político abastado. Sempre fez questão de manter no nosso dia-a-dia rodas de intelectuais, concertos, saraus, debates longos sobre questões públicas e filosóficas e tudo do que era mais erudito. Eu convivia com intelectuais de toda a parte, portanto, tive uma educação muito erudita e precoce. Viajei tanto, que me enfadei dos franceses, italianos, ingleses e de vários outros povos que, de tão enfadada, não quero nem lembrar suas nacionalidades.

  Mas, na volta pra casa de uma dessas viagens conheci um homem, bem aparentado e interessante, e o conheci dentro do navio mesmo. Ficamos conversando por horas e sobre os mais diversos assuntos. Mal vimos as horas passarem. Quando chegamos, ele me confiou seu endereço e pediu para que realmente o visitasse. Sem pensar de mais, disse que pensaria no convite, depois entrei no táxi que havia parado bem próximo de nós. Ao entrar já não o tinha em mente, estava relembrando de minha casa e dos adoráveis momentos que lá vivi.

  Semanas se passaram. Estava em um dia tedioso, não havia nada pra fazer, já tinha lido todos os livros que tive vontade e as noites estavam sendo todas iguais. Decidi procurá-lo, e o fiz.

  Fui até a casa dele. Ele me recebeu muito bem, gostei tanto que continuei indo até ele por semanas seguidas. Quando percebi estava apaixonada e ele já freqüentava minha casa, meu pai o adorava, todos o adoravam. E eu, eu o amava.

  Casamo-nos. Passamos três meses viajando pelo mundo. Presente do meu pai, ele fez questão! Estava tudo muito bem, tudo muito bem... Mas, anos depois minha cama era vazia, quando eu levantava, ele se deitava, isso acontecia na maioria dos dias. Os dias em que não acontecia isso, eu tinha noites delirantes ao lado dele. Ele vinha sedento, como se os dias em que não esteve do meu lado, tivessem sido dias amargos, tristes e desamorosos. Porém, no dia seguinte ele voltava a chegar de manhã, e dormir o dia todo para a noite tornar a sair.

  Eu já não suportava, sabia que ele estava em pândegas, sambas e bebedeiras. E que se deitava com amantes diversas, também.

Foram meses e meses nessa rotina. Sempre mantive uma tola esperança que tudo se ajeitaria. Nesses tais meses corridos, pensei muito sobre o que fazer. Já não suportava agüentar tudo aquilo sozinha, ainda não havia contado para minha família. Não tinha coragem sequer.

Tive a sorte de não depender do dinheiro dele, porém, tive o azar dele depender do meu. O dinheiro ia às mãos dele sem destino, e no dia seguinte lá vinha ele, todo cínico implorar por mais.

A fisionomia era a mesma, não demonstrava sinal de doença ou de quem possui alguma dependência química. As bochechas bem coradas, a face nem delgada nem rechonchuda, continuava lindo, como no dia que eu o conheci, e carinhoso, quando estava disposto a me acariciar, desejoso e insaciável quando decidia devorar o meu sexo.

Eu não me agüentava. A presença dele me lançava em um turbilhão e quando dava por mim mesma estava entregue ao zelo dele e já descansava exausta sobre o peito de tal homem. E no decorrer da noite estava mais uma vez enrolada sozinha nos lençóis, meras raízes da minha solidão que me enforcavam, me sufocam, me dilaceravam.

Em minhas leituras eu me perdia, os meus afazeres me entediavam, ao levantar minha paciência já estava esgotada e eu já me encontrava perplexa diante de minhas cogitações e devaneios sobre o homem que cuidava de mim quando lhe parecia direito e quando assim queria.

Farta destas mazelas, decidi me dedicar a outro homem, a outra paixão. Faria como ele, para poder sentir o que ele sentia. Para poder saciar-me como ele, para deleitar-me em transas noturnas e, quem sabe, loucuras diurnas, como ele mesmo costumava a fazer comigo, e sem dúvida, noites corridas com mulherzinhas de alminhas pequenas, a saboreá-las por essas sujas ruelas e casas noturnas.

Dei pra sair à noite, logo depois dele. Via-o virar a esquina e já saia em direção oposta. Andava por restaurantes luxuosos da cidade, sem muito ânimo, mas insistia naquilo na esperança de me livrar do cravo que aquele homem havia trespassado pela minha alma, pelo meu eu. Não foi difícil completar o meu objetivo. Às duas da manhã, eu já estava nua diante de um rapazinho qualquer; coitado, ele estava apenas louco para desfrutar do vigor de sua juventude. O mais engraçado é que dava pra perceber no rosto dele o contentamento por ter conseguido transar com uma mulher mais velha. Era um besta! E eu... Bem mais besta, por estar entregando meus caprichos a um corpo qualquer, a um jovem que mal sabia dos meus caminhos de mulher e, mesmo se soubesse não conseguiria compreende-los ou explora-los.

Decidi manter contato com o jovenzinho. Ria dele e, também, odiava-o, pois via nele mesmo a minha própria inocência de alguns anos atrás e, lembrava-me de como entreguei a minha juventude e caprichos às experiências de um homem qualquer. Mas, sabia que isso estava longe de passar pela cabeça daquele rapaz imberbe e que, também, ele não desejava o que eu desejava e não esperava de alguém o que eu esperava quando tinha a mesma idade. Meus sentimentos eram outros, minhas esperanças e aspirações também.

Eu e o homem que havia me tomado de mim mesma nos amávamos de dia e, quando a noite nos abraçava dividíamos a nossa cama com outros corpos. Eu desejando senti-lo naquele corpo pueril e sem sabor, enquanto ele buscava sua essência nas fontes mais diversas, nos sexos mais distintos, nos corpos mais libertinos, pois a inocência para ele nada tinha nada para oferecer e não sabia aceita-la ou muito menos conviver com tal.

Frustrei-me, pois não consegui, ao menos acredito sentir o que aquele infeliz sentia. O jovem dançava em meu corpo e eu perdia-me em injurias, em solidão e desafeto. Era uma mulher tola. Sou uma mulher. Fui sem querer apenas um lago de prazer masculino, no mais uma boa e tradicional mulher.

Pensei, muitas vezes em matá-lo enquanto dormia, mas achei esse desfecho tão típico de novela de emissora comum, que já achei patético de cara. Não ia matá-lo, não ia deixá-lo. Decidi, por fim, é fazer dele o que eu bem quisesse: quando ele me quisesse seria o momento em que eu também iria querê-lo. E no meio dessa loucura, me divertiria em romances bobos, os quais são feitos do amor carnal, nada mais. Criando uma simultaneidade de prazeres, de gozos, de paixões. Afinal, não por ser apenas uma mulher quer dizer que devo viver para o amor e para as relações mais estreitas com esse sentimento. Mulher também deseja deleitar-se em prazeres descontínuos e excessivos, mulher também é nutrida pelas ações carnais e lúbricas, como o sexo sem razão e zelo.

É porque eu sabia muito bem que se o deixasse sentiria grande falta e imensa saudade daquela virilidade que era sempre uma surpresa, que não tinha hora, que não batia na porta e que não avisava quando ia partir. Apenas aparecia,  tomando-me pela cintura e me absorvendo em afagos e abraços. Sentiria falta sim! Pois tal homem sabia muito bem dos meus anseios e, fazia-me desmanchar em prazeres que nenhum outro homenzinho seria capaz. Era ele a ponte para minha satisfação.

Senti-me assim, mais calma, mais querida e mais dona de mim mesma, que é o que toda mulher quer ser: dona do prazer que pode conceder ao homem que se faz digno de tal.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

As portas

Seis horas abri
Todas as portas que havia para mim
Sair, inclusive a do carro
Antes beijei lhe a face
Como a brisa beija a minha agora
Sutilmente, receosa da vida ainda se acomodar ali
No corpo, estático, frio como o silêncio
Depois,
Me Perdi, perdi e me perdi

Divinópolis, 05 de Setembro de 2008

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O Malabarismo da Desigualdade

Dia ensolarado.No calor escaldante do meio-dia o menino malabarista demonstra suas habilidades no sinal de trânsito; na esperança de conseguir algum trocado.Este ele usará para várias finalidades: pagará o almoço, provará a paçoca do bar do Zé, trocará seu pião e tentará "zerar" o fliperama, enquanto devora a paçoca e imagina o novo pião.
O sinal fechara.Ele entra rápido, já iniciando seu curto espetáculo que, deveria ser majestoso para agradar o motorista e veloz ao ponto de sobrar tempo para recolher as poucas colaborações.As varetas subiam rodando, enquanto ele dava um passo à frente com o intuito de pegá-la pelas costas e mais uma vez lançá-la rodopiante.Tudo corria bem, porém, de repente um rosto lívido e rasgado por um sorriso contentíssimo passou pela sua visão.Foi um desconcerto só!A vareta que já estava no ar, pela desconcentração do momento, voltou-lhe na cabeça em um baque surdo.Os motoristas soltavam gargalhadas e aproveitavam a oportunidade para ralhar com o despreparado garoto:

- Vá entregar panfletos, moleque! E outro gargalhando, concordou:
- Sim, vá entregar panfletos, antes que acerte o carro de alguém e agrave essa sua miséria!

Os risos soavam sem cessar, e ele, o malabarista, todo desajeitado recolhia seus apetrechos e saia do meio da rua com "uma mão na frente e a outra atrás", chateado por ter falhado na sua tarefa e triste por saber, que naquele momento a chance de jogar fliperama no dia tinha acabado.
O sinal abrira.Ele ficou sentado no passeio com ar vazio a maldizer aquele rosto que lhe tirara a atenção.

- Nunca aconteceu isso comigo antes! Pensara.
- Logo hoje...

Hesitou o seu pensamento e voltara correndo para o meio da rua, pois o sinal, mais uma vez, estava no vermelho.
O dia, depois de tal acontecimento fora normal. O pequeno malabarista arrecadou uma quantia razoável. Já era noite e ele estava exausto.Com suas varetas sobre os ombros andava lentamente pelas ruas a caminho de casa, que era uma praça onde ele dormia todos os dias. Ajeitava-se de baixo de um monumento, que até o protegia muito bem do vento e da chuva, quando esta resolvia vir.
Finalmente chegara em casa e já fora largando seu corpo no seu fino e gasto colchão que, um dia, por sorte, encontrara junto a um monte de lixo.Com as pernas bem esticadas e a barriguinha voltada para cima, o pequeno malabarista pensava no rosto que tinha visto no mesmo dia. Era uma menina, sem dúvida; era bela, o carro em que ela estava ele mal vira, mas deveria ser bem luxuoso, pois aquela rua conduzia a um bairro nobre da cidade.Até que de repente pegara no sono. E nesse instante suspirou como se a vida fosse tranquila e cheia de ternura para com ele.E que o lívido e fantasmagórico rosto não representasse sua tão conhecida rival brasileira: a desigualdade social.

Divinópolis, Setembro de 2008

A beleza e o desamor

A noite, o vento
Aquele bom frescor
Na sacada esticada
Espairece aquela flor

Tão concentrada, encantada
Com a noite e o trovador
Um amante, delirante
Canta retumbante
As diligências do desamor

Foi deixado e esquecido
Não quis mais ser compositor
Perturbado e entristecido
Violentou aquela flor
Que abatida e coagida
Perdeu o seu frescor.

Divinópolis, Dezembro de 2007

Mundo Sentido

É o gozo latente,
O sorriso iminente
E Um carinho indecente.
O sexo incoerente
Em um corpo envolvente.

Enquanto a guerra vai em frente
Com a glória sempre em mente,
Corpos e almas murcham num mundo indiferente.

Mas, a paixão se faz emergente
Abstração renitente
Afirmação de uma vertente, que
Acalenta a vida mais quente.


Divinópolis, 03 de Setembro, 2008